O que nos leva a comer demais?

Por que ainda sentimos fome depois de verdadeiros banquetes, como na ceia de Natal? Será que comer mais do que o necessário “aumenta” o estômago, o que significa que você tem mais espaço para comer no dia seguinte? O quer nos leva a comer demais, mesmo quando estamos muito bem alimentados?

Aquela pontada que te dá vontade de comer é resultado de uma série de mudanças fisiológicas dentro do organismo.

Como nosso estômago funciona?

O nosso estômago muda de tamanho quando está cheio ou com fome. Ele se contrai à medida que a refeição é digerida para ajudar a encaminhar os alimentos em direção ao intestino. E ronca conforme o ar e a comida se movimentam, e os alimentos são empurrados para baixo, em um fenômeno chamado borborigmo, que geralmente é o primeiro sinal de que podemos estar com fome, uma vez que é sonoro e físico. 

Leia também: A influência da psicologia alimentar na nutrição

Leia também: 10 hábitos que favorecem a má digestão

Depois de roncar, o estômago se expande novamente, se preparando para a comida, e isso é desencadeado pelos hormônios.

Mas não é bem verdade que comer “aumente” o estômago. Como o estômago é muito elástico, ele volta à sua capacidade de repouso (cerca de um a dois litros) após uma refeição farta. Na verdade, o estômago da maioria das pessoas tem capacidade semelhante, ou seja nem altura, nem peso influenciam.

O que talvez não tenhamos consciência é da liberação dos hormônios da fome: o NPY e AgRP do hipotálamo e a grelina do estômago. A grelina é liberada quando o estômago está vazio e estimula a produção de NPY e AgRP no cérebro. Esses dois hormônios são responsáveis ​​por criar a sensação de fome, anulando os hormônios que nos dão a sensação de saciedade.

Talvez contraintuitivamente, os níveis de grelina tendem a ser mais altos em indivíduos magros, e mais baixos em pessoas obesas. Você poderia supor que um hormônio que estimula a fome estaria mais presente em pessoas que comem mais, mas essa contradição provavelmente reflete o quão complicado é o nosso sistema endócrino.

O sentimento de saciedade e os hormônios

Embora apenas três hormônios sejam em grande parte responsáveis ​​por gerar a sensação de fome, são necessários cerca de uma dúzia para nos fazer sentir saciados. Alguns deles, GIP e GLP-1, são responsáveis ​​por estimular a produção de insulina para regular o metabolismo dos carboidratos. Vários outros hormônios estão envolvidos na desaceleração da movimentação dos alimentos dentro do estômago, para dar tempo ao corpo de fazer a digestão.

Para pessoas obesas que têm baixos níveis de grelina, pode ser que altos níveis de insulina, necessários para metabolizar uma dieta rica em carboidratos, estejam inibindo a produção de grelina.

Embora o estômago tenha um sistema hormonal para informar ao cérebro quando está vazio, isso geralmente é aumentado pela associação que fazemos entre a fome e os períodos do dia. Portanto, mesmo que você tenha almoçado muito bem, ainda pode sentir fome no jantar.

“Comer demais não é ruim”, segundo Karolien Van den Akker, pesquisadora do grupo Centerdata. Diferentemente do diagnóstico clínico de compulsão alimentar, em que quantidades muito grandes de comida são consumidas em um curto espaço de tempo, sendo geralmente associada a sentimentos de repulsa, culpa ou vergonha, comer demais pode ser visto simplesmente como um hábito que as pessoas, geralmente, não gostariam de ter.

Então a memória tem haver com o desejo de comer?

O desejo de comida adquirido também pode tornar muito difícil manter uma dieta bem-sucedida. Quando aprendemos a associar as propriedades gratificantes dos alimentos, principalmente daqueles com alto teor de açúcar, a horários, cheiros, ambientes e comportamentos específicos, a memória dessa sensação é ativada e você começa ter desejo. Isso desencadeia não apenas respostas psicológicas, mas fisiológicas, como salivação.

“Se você sempre come um pedaço de chocolate ou petisco depois do jantar, quando senta no sofá para assistir à televisão, seu corpo pode começar a associar o hábito de sentar no sofá com ver televisão e comer algo agradável, e, como resultado, quando você vai para o sofá, sente o desejo”, exemplifica Van den Akker. “Isso pode acontecer até quando você está saciado, quando suas reservas de energia estão cheias.”

Outro bom exemplo é o “cão de Pavlov”, experimento em que um sino é tocado na hora das refeições, para que um cachorro associe o som do sino à comida. Por fim, o animal acaba salivando só de ouvir o sino.

Os seres humanos não são muito mais sofisticados que os cães nesse sentido. Em outro experimento, os pesquisadores mostraram formas simples (círculos e quadrados) aos participantes. Quando a figura era um quadrado, eles recebiam um pedaço de chocolate e, a partir de então, começaram a ter vontade de comer chocolate sempre que viam um quadrado em qualquer lugar. Assim como os cães, os seres humanos podem ser condicionados a esperar alimentos com base em sugestões simples.

É bem fácil adquirir esses desejos, mas é difícil se livrar deles.

Às vezes, até nosso humor pode se tornar um gatilho para o condicionamento. As pessoas geralmente relatam ter menos autocontrole se estiverem de mau humor ou cansadas. Você já sentiu aquela vontade incontrolável de comer uma vasilha de brigadeiro de colher ao se sentir chateado (a) ou triste? É disso que estamos falando.

Mais social, mais comida

Em princípio, qualquer humor, mesmo positivo, pode se tornar um gatilho de desejo, desde que seja consistentemente seguido por comida. E tem sido mostrado reiteradamente que comemos mais quando estamos na companhia de amigos.

Mesmo quando você controla o consumo de álcool, em ocasiões especiais, seja pelo tempo que passamos à mesa e uma série de outros fatores, comemos mais quando estamos sendo sociais. Talvez porque o prazer das companhias ao nosso redor dificulte a concentração em relação ao controle de porções.

Talvez não seja surpresa, portanto, que sintamos fome depois de uma refeição farta com a família e os amigos. Sentimos fome no dia seguinte, ou até no mesmo dia mais tarde, não porque nosso estômago “aumentou”, mas porque nos acostumamos a comer excessivamente em ocasiões especiais.

Se nossos cérebros se deparam com todos os sinais (cheiros, sons, ambiente, etc) associados a uma refeição farta no dia seguinte a um banquete, como na ceia de Natal, ele começa a nos preparar para a segunda rodada no almoço do dia seguinte.